Divagações / Digressions
Fragmento ...

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Estou totalmente concentrado no jogo de ténis que vai acontecendo no pequeno ecrã. De um lado, a arte sublime de Federer; do outro, a força e a «fúria» de vencer de Nadal. Sentado numa ponta do sofá, vou lançando a L. um olhar furtivo de quando em vez. Descortino nele alguma impaciência e ansiedade. Sentado na outra ponta, L. espera e desespera.
É uma tarde pardacenta de sexta-feira e a iluminação pública acende-se de repente, inundando a pequena sala com uma luminosidade pálida entrecortada pelas persianas. A chuva continua a cair e os ponteiros do relógio continuam o seu tiquetaque inexoravelmente lento. Por vezes, L. deita um olhar ao relógio. São seis menos um quarto. Esticado no sofá, tenta concentrar-se na leitura do jornal. Em vão, a mente parece cavalgar algures fora daquela sala.
De tempos a tempos ouvem-se passos no corredor. Aproximam-se mas continuam sem se deter à nossa porta. Uma vez, duas…. Até que à terceira ouve-se a fechadura da porta rodar. O desgaste da espera evapora-se como que por encanto do rosto de L. e dá lugar a um sentimento de grande serenidade. Instantes depois, P. surge na ombreira da porta da sala, cansada mas sorridente. Segue-se um abraço forte, um beijo longo e sentam-se os dois no chão. De imediato P aninha-se nos braços de L.. Ao ver estes dois corpos colados como um só, dou-me conta do poder metameforseante da paixão. Por pudor, desvio o olhar.
Entretanto o jogo acabou com a vitória do suíço. Lá fora, ouvem-se carros a passar na estrada e as vozes de um ou outro transeunte ocasional. Atiro-lhes um adeus e saio pé ante pé, fechando a porta atrás de mim. Tomo o elevador, saio para a rua e perco-me na tarde...
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JB, 2006

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