Divagações / Digressions
Os olhos da alma
Entrou, passou por mim e, sem se deter, dirigiu-se calmamente para a explanada. No exterior, aspirou profundamente o ar da manhã de Outono e sentou-se bem lá no fundo, num local sobranceiro ao parque.
Uns instantes depois puxou de um cigarro e pôs-se a fumar tranquilamente, absorto nos seus pensamentos. Com o olhar perdido no vazio, ia expelindo baforadas de fumo que circundavam em torno dele, para depois se irem «desfazendo» no bosque frondoso.
Espiei-o, pelo canto do olho, enquanto tomava o pequeno-almoço, procurando descortinar se estava em presença da solidão ou apenas do gozo da pacatez de uma manhã de sábado. O lugar convidava quer a uma, quer a outra coisa. Olhei, olhei, voltei a olhar, sem chegar a conclusão alguma.
Aparentemente, pareceu-me que estava em presença de alguém que amenamente se entregava a um momento de descontracção. Nesse dia foi a leitura que fiz. Hoje, porém, ao olhar para esta criatura, descortino nela uma imagem de alguém perdido, no fim da linha.
Meditando sobre este paradoxo, chego à conclusão que nós objectivamos no que vemos os nossos estados de espírito. Nesse sábado, todo eu era serenidade. Hoje, a melancolia que se liberta desta tarde de Outono metamorfoseia a aparente serenidade numa solidão de chumbo.
Nós podemos olhar com os olhos, mas vemos unicamente com os «olhos da alma».
JB, Novembro, 2006

Reader Comments (3)
De resto, o local parece-me bonito, mais propício a contemplação que a comiseração.
Será?
Bjs
Beijinho.