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Memórias de Natal...

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Tenho memória de três Natais. Três Natais bem diferentes. O primeiro, aquele de que guardo uma impressão mais perene e me tem acompanhado ao longo da vida, foi o da minha infância. Pela manhã, mal acordávamos, íamos, eu e o meu irmão, à chaminé da casa onde morávamos para ver o que o menino Jesus tinha depositado nos nossos sapatitos. O menino Jesus sim, e não o Pai Natal, porque a globalização ainda não tinha padronizado o mundo segundos os valores da nação do Tio Sam.

Que ânsia! Levantávamo-nos da cama rápidos como um ápice e, numa correria louca, dirigíamo-nos para a cozinha. Normalmente o menino Jesus era bastante generoso connosco e lá tínhamos à nossa espera chocolates vários, em invólucros de várias cores, que tinham o condão de aguçar ainda mais a nossa gula. Depois, refastelados no jardim da casa, ficávamos a atafulharmo-nos com a generosidade «divina».

Um salto no tempo. Estou em Angola, em Dezembro de 1987. Recém-chegado, deparo com um país depauperado pela guerra. A melhor imagem para o descrever é a de um ser esquálido que se arrasta exangue. Aqui e ali conseguia ver alguns sinais de riqueza, de bastante riqueza, mas isso é «normal» em países do dito «Terceiro Mundo».

Longe da família, questionava-me frequentemente sobre a maneira como iria passar o Natal. No Hotel Mundial, onde me encontrava alojado? No Hotel Presidente? Não descortinava qualquer alternativa aos dois melhores hotéis da Luanda de então, onde não faltavam todas as iguarias para comemorar condignamente esta quadra festiva. Um dia, porém, um dos nossos colaboradores, talvez condoído por nos encontrarmos longe da família, a muitos milhares de quilómetros de casa, decide convidar-nos a consoar com ele.

Confesso que aceitei o convite com alguma relutância. A ausência de recolha de lixo, que se amontoava pelas ruas, os cortes sucessivos de luz eléctrica e a falta de água não auguravam nada de bom.  Desde início acedi em ir, sobretudo para não ferir a susceptibilidade do CF. Mas as minhas expectativas não eram por aí além. Contava encontrar uma mesa de Natal meia vazia, dada a penúria generalizada que podia ser vista a olho nu.

Chegada a noite de 24 de Dezembro, dirigimo-nos ao Bairro do Samba. Ao entrar na moradia do nosso colaborador, deparo-me com uma das mesas de Natal mais requintadas que alguma vez vi. Não faltavam nem o bacalhau e as batatas cozidas, tão tradicionais da cozinha portuguesa, nem os vinhos maduros, Champanhe, uísques, conhaques, caviar, bolos, arroz doce… Eu sei lá. Quando procurei saber como foi possível prendar-nos com tão lauto banquete, o CF limitou-se a dizer que tinha um «esquema». Nesta palavra estava tudo. Com o país dilacerado pela guerra civil, as pessoas tinham de se desenvencilhar. O «esquema» era afinal a maneira de sobreviver, uma forma de «carpe diem». Sem saber o que lhes poderia acontecer no dia seguinte, os angolanos viviam cada dia como se fosse o último. «Vamos viver o hoje e deixar o amanhã para depois». Que admirável lição de vida.

O último Natal de que guardo memória é o dos nossos dias. Consumista, globalizado, «made in USA». Os valores tradicionais da família continuam presentes mas são totalmente abafados pela febre compradora. E é ver toda a gente, frenética, a acotovelar-se nos centros comerciais, as verdadeiras catedrais dos tempos modernos. A afectividade afere-se pelas «prendas» com que brindamos as pessoas que nos são próximas. Dar prendas é sinal de que nos lembramos dos outros, de que nos preocupamos com eles.  Tal gesto poderá até nem ser de todo condenável  se não limitarmos este nosso altruísmo apenas e unicamente a esta quadra festiva.

Para todos um Bom Natal!

JB, Dezembro 2006

Posted on Sábado, Dezembro 23, 2006 at 06:17PM by Registered CommenterJosé Bóia] | Comments1 Comment

Reader Comments (1)

Minhas lembranças de Natal são as luzes coloridas das árvores montadas nas ruas...mais do que os presentes e brinquedos, os passeios à noite de carro, quase todos os dias durante o período das festas, com a pequena família me encantava....

Você tem razão: o gesto de partilhar não deve se limitar a apenas uns poucos dias de entusiasmo festivo.

Bjs e Feliz Natal José!
Dezembro 24, 2006 | Unregistered CommenterSilvia

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