Divagações / Digressions
Há mais vida para além de ...
No outro dia dei por mim a pensar que todos nós usamos uma «persona», uma máscara, ou até mais do que uma, na nossa vida quotidiana. As mais das vezes por necessidade de nos protegermos, para evitarmos dissabores, por precaução. No nosso local de trabalho, nos locais onde socializamos, em todos os lugares onde pretendemos projectar uma certa imagem, i.e., a «imagem» que queremos que os outros retenham de nós. De todas as «personas» possíveis, escolhemos aquela mais ajustada às circunstâncias. Sem esforço, quase como um reflexo condicionado.
De quando em vez deparo com pessoas em que intuo imediatamente a «persona» mas, olhando mais de perto, vejo que essa «máscara», aparentemente alegre, é «carregada» com grande sofrimento. A generalidade das pessoas «constrói-a» e «transporta-a» sem esforço. Estas não! Exige um esforço hercúleo. Nestes casos, importa apenas recobrir, a qualquer custo, a interioridade, a tristeza, e projectar uma «imagem» de felicidade, de sentido de humor, de jovialidade. «The show must go on…» O curioso é que frequentemente se assemelham a matriuskas, essas bonecas russas que encerram em si uma cópia de si mesmas. Para chegarmos a conhecer essa pessoa verdadeiramente temos de ir, pacientemente, retirando uma após outra.
O véu diáfano da alegria ou a couraça de aparente rispidez escondem desencanto. Invariavelmente por sentirem ter sido «usadas» e logo «descartadas» sem mais aquelas. Algumas pactuaram elas próprias, voluntária ou involuntariamente, com essas situações, por um ou outro motivo. No fim, feito o balanço, imaginam-se num beco sem saída. Com a auto-estima pelas ruas da amargura, julgam não existir mais vida para além de …. Mas a realidade é que há. Há, de facto, mais vida para além do seu «Cabo das Tormentas» pessoal. A solução passa sempre por «arrancar» a «persona» que outros lhe «colaram», e passou a ser a sua segunda natureza, e aprender a gostar delas próprias. O que até nem é tão difícil assim...

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