Divagações / Digressions
Memórias de um outro mar...

Enquanto arrumava alguns papéis, um destes dias, tropecei literalmente neste poema, escrito várias décadas atrás. Estava no meio de um livro de Harold Robbins, Dream Merchants, esquecido algures entre a tralha que me acompanhou ao longo da vida. Não sei a quem foi dedicado, mas isso é irrelevante. Terá seguramente trinta anos, ou talvez mais, e evoca os meus tempos de menino e moço pelo areal da praia da Figueira. A versão é praticamente a original, com um retoque aqui e ali. Espero que gostem e que vos sirva de inspiração para este novo ano acabado de entrar:
Da minha alma vejo o marCalmo,
Tranquilo,
Inebriante…
Não me canso nunca de olhá-lo.
Com o espírito aplacado
E sequioso de viver
Quero lançar-me,
Contigo, Sedento,
Num voo de condor
Sobre esse azul imenso.
Um dia
Vaguearemos,
Entrelaçados,
Ao longo da praia da vida,
E, quando o sol,
Soberbo,
Começar a pintar,
Com raios de fogo
O horizonte,
Na areia ainda quente,
Dos despojos do dia,
Como um só corpo,
Repousaremos
E deixar-nos-emos envolver,
Serenamente,
Pelo manto cálido da noite.
PS. Decidi retirar o original do meio do romance do Harold Robbins, que tanto me entusiasmou na minha adolescência, e depositei-o, em muito melhor companhia, no interior de um dos meus livros favoritos - Tod in Venedig, de Thomas Mann. Acho que procedi acertadamente. Um dia destes retornarei ao poema, com o romance de Mann no regaço. Fecharei então os olhos e, embalado por uma das sinfonias de Mahler, tentarei confirmar se ainda continuo a ver aquele mar...

Reader Comments (3)
Quanto a ainda veres o mar... tenho a certeza que sim. Quem escreve e fotografa dessa maneira há-de sempre ver o mar, nem que esteja a milhares de kms de distância.
Um beijinho e um bom excelente 2007.
CR
Quanto ao poema e à história que contas, só prova que na vida, afinal, nada se perde. Vamos reconstruindo os dias, dia a dia...