Divagações / Digressions
Viajante do Tempo

(Cores de Outono)
Estou sentado, voltado para o rio, na Pizzaria Itália. Sinais dos tempos. Do outro lado, ergue-se, majestoso, o quartel de Santa Clara. O tempo parece não ter passado por aqui porque a imagem que retenho de há 35 anos atrás é exactamente a mesma. Nessa altura costumava passar as tardes a estudar no Café do Parque, não muito longe do sítio onde me encontro agora, e, de tempos a tempos, deixava o espírito vaguear pela outra margem. Quando baixo o olhar, deparo, no meio do rio, com um insólito bando de gaivotas que se deixa levar pela corrente.
Enquanto saboreio o carpaccio de salmão com rúcola selvagem, vou desfiando memórias de um tempo outro. De onde me encontro sentado consigo «divisar» o antigo Texas, um snack-bar onde muitas vezes fui comer um combinado. As mais das vezes, aos domingos, em tudo iguais ao de hoje.
Nesse tempo, era um jovem de 17 anos, recém-chegado da Figueira, para frequentar Germânicas e jogar basket na Académica. Lembro-me dos jogos no pavilhão universitário, de uma mão cheia de amigos, dos amores mais ou menos duradouros, das noitadas passadas nas comezainas e nos copos e de um ou outro professor. Recordo um em especial, senhor de um mau feitio lendário mas com uma sensibilidade do tamanho do mundo, o Professor Doutor Paulo Quintela. Foi ele que me sensibilizou para a poesia alemã e me deu a conhecer um dos meus poetas favoritos, Rainer Maria Rilke.
Regresso da longa viagem no tempo. Trinta e cinco anos decorreram entretanto e perante os meus olhos «contemplo» o passado, presente e futuro. Muita água correu por debaixo das pontes, no meu deambular pelo mundo e pela vida. O rapazito fez-se homem, navegou em mares ora calmos, ora encapelados, baloiçou ao sabor de ilusões e desilusões e viu começarem a aproximar-se os primeiros frios. Uma coisa é certa porém: o sonho que o animava há 35 anos atrás teima obstinadamente em não arredar pé…
JB, Novembro 2006

Reader Comments (2)
Beijinhos,
CR