Divagações / Digressions
Deviam ter-nos poupado a isso...
Existem dois poetas que deveras admiro. Uma palavra, antes de avançar, para justificar este meu «fascínio» pela poesia e poetas. Poderia dizer que prezo o carácter epigramático da poesia em geral, que me deixo fascinar pela escolha do «verbo» exacto, poderia… Mas a verdade, pura e simples, é que não tenho paciência para grandes «linguados». Os romances parecem-me um trabalho de Sísifo. Ao contrário, a poesia pode ser «lida» e «assimilada» num instante. A maior parte convenhamos….
Mas voltando aos dois poetas… São eles Manuel Bandeira e Fernando Pessoa. (Não, a ordem não tem nada que ver com falta de sentimento patriótico, mas apenas com a deferência para com o nosso «irmão» do outro lado do mar.) Admiro-lhes, porque não dizer invejo-lhes, a capacidade de fazer arte com o anódino. Não me canso de lê-los e relê-los, à procura dessa «luz». Talvez um dia consiga lá chegar…
Mas este «arrebatamento» não me cega e impede de ser crítico. Estão em causa dois poemas destes meus dois companheiros de cabeceira: Versos escritos n’água e Todas as cartas de amor… Não me canso de ler estes dois poemas mas chego sempre ao fim com um sentimento de frustração. Sinto que ambos falaram de mais. O primeiro poema devia ter ficado pelas duas primeiras estrofes e o segundo pelas cinco primeiras. Porque não se acabou o papel, porque não se acabou a tinta no tinteiro, porque não se lembraram de ir fazer outra coisa? Não, porque não caiu um raio naquele momento é algo que não desejo… ter-nos-ia privado de outros poemas que nos transportam às portas do paraíso. Mas os poemas deviam ter acabado ali. No que lá não devia estar, Pessoa acha-se ridículo por ter amado, por ter experimentado «sentimentos esdrúxulos» e Bandeira lamenta-se pelos seus versos não terem tido eco na sua «musa» inspiradora. Para quê fecharem dois poemas tão belos com uma nota de tristeza, de desapontamento ? Podiam e deviam ter-nos poupado a isso. Os poemas teriam ficado magistralmente perfeitos e universais. Assim, acabam com um registo de decepção, de desencanto. Não resistiram à exibição das suas «misérias» e os textos perdem irremediavelmente com isso. Por isso aqui fica lavrado o meu protesto veemente. Sobretudo porque aquelas «notas» pessoais impedem que «ponha a minha tristeza ou o meu júbilo» nestes dois poemas sublimes . Mas julguem por vocês próprios:
http://www.lumiarte.com/luardeoutono/manuelbandeira.html
http://www.releituras.com/fpessoa_cartas.asp
JB, Janeiro de 2007
PS. Como Frei Tomás, façam o que ele diz, não o que ele faz.

Reader Comments (1)
No entanto, fui ler o poema de Manuel Bandeira, que não conhecia, e concordo que não era precisa a nota final tão triste.
Quanto ao Pessoa, é claro que conhecia o poema e, visto à luz do que escreveste, também dispensava o final esdrúxulo.
E mais não digo, porque ameaço meter água...
Beijinhos!
CR