Divagações / Digressions
O Kinnor de Ahmase I

Durante a décima sétima dinastia, houve, no Egipto Antigo, um faraó que sempre me fascinou. Não é dos mais referidos pelos egiptólogos mas é certamente um dos mais desconcertantes. De seu nome Ahmose I , sucedeu a Tao II, O Bravo, em 1549 AC.
Ao contrário dos seus predecessores, Ahmose I desenvolveu um gosto apuradíssimo pela música e era vê-lo ombrear a tocar o kinnor, um instrumento musical parecido com a cítara, ou o ugab, uma flauta vertical, com os músicos mais distintos da corte. Nos tempos de hoje seria algo altamente louvável mas, naquele tempo, não deixava de constituir um facto bastante invulgar para os senhores absolutos do vale do Nilo. Mais estranho ainda era o facto do seu ugab não ter incrustadas representações de Hathor ou Bes, deusa e deus da música, respectivamente, mas sim um belo e garboso cavalo árabe.
Para os antigos egípcios isto era de todo incompreensível. Os instrumentos musicais, a terem figuras incrustadas, teriam de ser obrigatoriamente os deuses patronos da música. Um cavalo? Por muito belo que fosse, onde já se vira tamanha ousadia? Ainda se fosse um gato, que acreditavam possuir poderes mágicos, ainda vá que não vá. Mas um cavalo???!!!!
Os gestos pouco ortodoxos não se ficavam, porém, por aqui. O faraó tinha ainda outras atitudes no mínimo estranhas, para não dizermos outra coisa. Em vez de utilizar os cavalos nas quadrigas, cavalgava montado num belo alazão árabe que tinha trazido da Núbia Superior, no Sudão, após a campanha vitoriosa contra o reino de Kush. Por outro lado, não poupara ele a vida de Ahhotep que sacrificara um gato? Como fora isto possível? Até aí, tal desaforo tinha custado a vida a todos os prevaricadores. Finalmente, como ousava Ahmose I ir contra os ditames dos sacerdotes e proibi-los de propagar a crença de que rato frito curaria todo o tipo de dores? Onde já se vira tal audácia?
Certo dia, Khahernesetef, preocupado com a vaga de acusações contra o faraó, de quem fora em tempos preceptor, decide confrontar Ahmose I com estes factos e tentar chamá-lo à razão. Sem se perturbar, o faraó respondeu que tirar a vida a alguém não restituiria a vida ao gato e que os poderes curativos do rato frito não passavam de uma crendice perniciosa e até perigosa, capaz de transmitir várias doenças. Tais ensinamentos tinham-lhe chegado através de um grego que um dia naufragara nas imediações de Alexandria. Após o naufrágio, fixara-se por essas bandas e dedicava-se a curar as maleitas das populações circunvizinhas. Quanto à sua paixão pelos cavalos, existia uma justificação de peso. Era o animal mais veloz e gracioso à face da terra. Mas, mais importante ainda, é que o cavalo personificava, para ele, a dimensão do sonho e o que ele tem de belo e arrebatador. A imagem do cavalo no kinnor que o acompanhava para todo o lado tinha como finalidade lembrá-lo permanentemente da importância do sonho. E, perante um Khahernesetef perplexo e sem saber o que responder, rematou: «É o sonho que nos move! Quanto aos meus detractores, vai em paz, meu caro Khahernesetef, porque os cães ladram e a caravana passa.»
JB, 3/01/07

Reader Comments (3)
Não sei se o cavalo é o mais veloz e o mais gracioso dos animais (nas férias de Agosto, vi talvez o animal mais belo que eu vi até hoje, um leopardo da neve, um bicho lindo, que não me cansei de admirar - infelizmente, em cativeiro!).
Mas lá que o faraó em causa devia ser um bicho raro, não há dúvida!!
Beijinhos e obrigada pela partilha dos textos!
CR
Um óptimo 2007 com muitos textos felizes, como este.