Divagações / Digressions
Calendário dos sonhos
Há uns dias tive um sonho deveras bizarro. Imaginei-me, algures, no meio do nada, rodeado de imensa gente. Depois de algum tempo, apercebi-me que aguardávamos todos a chegada de um comboio. Com uma sensação de claustrofobia, mal conseguia respirar no meio desta multidão ululante que se agitava frenética. Esperávamos e desesperávamos, mas o comboio teimava em não passar. A pouco e pouco a esperança foi-se desvanecendo e acabei por perceber, não sem um sentimento de horror, que nos acotovelávamos afinal num apeadeiro fantasma, perdido num tempo qualquer, sem comboios e sem destinos. Experimento um arrepio pavoroso e , ao aproximar-me perigosamente da beira da plataforma, precipito-me num abismo sem fim. Desesperadamente tento acordar mas os meus esforços resultam vãos. De repente, o toque do despertador põe abruptamente fim a este pesadelo. Dou por mim com o corpo coberto de suores frios.
(…)
A noite tinha decorrido tranquila e, ao deitar-me, adormeci sem mais demoras. Sonhei que me encontrava numa explanada à beira-rio, cercado de pessoas, e que as águas eram ciclicamente cruzadas por veleiros impelidos pela brisa primaveril. Descortinava-os ao longe, seguia-os com os olhos, via-os aproximarem-se e depois afastarem-se lentamente, até desaparecerem no horizonte. Uns fascinavam-me pelas cores das velas, outros pela leveza com que sulcavam as águas e ainda outros pela graciosidade sobranceira com que pareciam «enfrentar» o meu olhar. Senti desejo de me aventurar rio abaixo mas hesitei, temendo perder a segurança da terra firme. A pouco e pouco fui-me apercebendo que, um a um, os meus companheiros iam partindo até que, num ápice, dou por mim sozinho no cais envolto num nevoeiro pavoroso. Esfrego os olhos mas não consigo vislumbrar um palmo à frente do nariz. Impotente, sento-me no chão e fico para ali a aguardar não sei bem o quê. Talvez Godot...
(…)
Outra noite, outro sonho. Estou agora deitado à beira mar e o meu olhar perde-se nesse imenso azul que tenho perante mim. Tenho ânsia de me aventurar mar adentro. Mas como? Os barcos cruzam a linha do horizonte a uma distância inacessível. Mecanicamente olho para o livro que trouxera comigo: Augenblicke von Leidenschaft, de Rilke e Rodin. Folheei-o e comecei a lê-lo com avidez. Como por encanto, senti-me transportado para um mar revolto. Por vezes, a espuma das ondas encapeladas fustigava-me o rosto e deixava-me meio cego. Mas nada disso me conseguia perturbar. Depois de navegar durante algum tempo, consegui perceber algo que até ali me tinha passado literalmente despercebido: as viagens mais luminosas são aquelas em que nos aventuramos pelo azul labiríntico da nossa alma. Foi com um sentimento de frustração imenso que o despertador me «arrancou» desta minha jornada ao mais recôndito de mim. Na noite seguinte adormeci com a vaga esperança de lá retornar mas, estranhamente ou não, nada aconteceu...
JB, Janeiro 2007

Reader Comments (1)
Mas os sonhos (bons) não são controláveis. Já o fim de um pesadelo acho que até é, pelo menos arranjei uma "técnica" para fugir depois de ser "apanhada" num...
Este é de facto um tema interessante. Não sei se as "viagens" sonhadas são as mais luminosas, mas no fundo os sonhos não passam de colagens e novas argumentações da realidade vivida...