Divagações / Digressions
Gare de Austerlitz, 1973

Paris, Gare de Austerlitz. São oito horas de um domingo perdido nos confins de Setembro de 1973. Dia quente, como se o verão estivesse a dar o grito do cisne antes de demandar novas paragens a sul.
Dei por eles na plataforma de embarque. Ela, alta, esguia, olhos azuis, cabelos louros, apanhados. Ele moreno, ao contrário dela. Andariam ambos pelos vinte anos. Nela chamou-me à atenção a mini-saia generosa e nele as calças à boca-de-sino. Atavios da época.
Abraçados, permaneciam indiferentes à agitação circundante. O tempo parecia ter estacado para eles. Moreno, devia ser espanhol ou português e estaria de regresso a casa. Ele afagava-lhe o cabelo e ela enroscava-se nele. De dentro do Sud-Express ouvi um silvo e ei-lo que desata numa correria louca para entrar para o comboio que entretanto se tinha posto em movimento. Já dentro da carruagem, arruma o saco de viagem num ápice e precipita-se para a janela. E para ali ficou a acenar até perder de vista o cais de embarque.
Passados alguns momentos, sentou-se a meu lado. A curiosidade foi mais forte e acabei por entabular conversa com ele. Contou-me que era estudante universitário de Coimbra e que tinha passado uma temporada na Alemanha. De regresso, conhecera a Angela no comboio, à saída de Ösnabruck. O destino dela era Paris, onde tencionava passar duas semanas. Foi coup de foudre. Antes de chegarem à Gare du Nord já tinha decidido ficar em Paris durante algum tempo. O resto da história é fácil de adivinhar. Escolheram um hotel modesto perto de St Michel e por lá ficaram. Descobrir Paris a dois tinha sido uma experiência inesquecível. Difícil de repetir.
Lá fui ouvindo este meu jovem companheiro de viagem desfiar as suas aventuras em Paris. Confesso que o escutava com um misto de admiração e uma pontinha de inveja também. Mas era mais do que evidente que a separação tinha sido bastante dolorosa. Deixei-o entregue aos seus pensamentos e mergulhei na leitura de um livro que trouxera comigo. Seria Memórias de Adriano? Já não sei.
Poder-lhe-ia ter dito que iria rever Angela, dois anos mais tarde, em Colónia, quando, mais uma vez na Alemanha, iria a caminho de Berlim. Poder-lhe-ia ter dito que Angela, ao saber que ele estava perto dela, abandonaria tudo para ir ter com ele a casa do Thomas, perto da catedral. Poder-lhe-ia ter dito que Angela iria recordar aquelas duas semanas em Paris para sempre. Poder-lhe-ia ter dito … Mas como, como saltar a dimensão do tempo?
O meu olhar desvia-se por momentos do ecrã do computador e percorre a sala. Pacatamente, os alunos lá continuavam a fazer o teste de Inglês sobre o mundo tecnológico em que vivemos. Calmamente desligo o computador e fecho, por momentos, o livro de memórias. Até já.
JB, 2007-02-13
PS. P(a)ra grande pena minha a fotografia não é da minha autoria.

Reader Comments (3)
À parte a nostalgia que me invadiu, gostei muito da forma como contas a história, como ela se apodera de nós e flui rapidamente na nossa cabeça...
E Paris deixa-me tão nostálgica! Tantas recordações de Paris!Tão tristinhas!
Mas gostei muito, Zé!
És um romântico !
Beijinho
Quanto a separações elas são sempre (muito) dolorosas, mas a vida é feita de circunstâncias, ocasiões, situações e oportunidades e se não as aproveitamos não preenchemos todos os instantes e também não vivemos...
Beijinhos