Divagações / Digressions
Scritpa manent, verba Volant

Por curioso que possa parecer, esta citação desvalorizava inicialmente a palavra escrita, em detrimento da palavra dita. As palavras escritas assumiam um carácter «estático», enquanto que as ditas ganhavam asas e chegavam longe. Com o passar do tempo, o significado da citação inverteu-se e a palavra escrita acaba por ganhar um sentido perene, ao passo que a dita leva-a literalmente o vento, e tem, por essa razão, uma existência muito breve e temporária. A razão desta inversão do significado original ficou a dever-se à invenção de Gutenberg e à subsequente massificação da leitura que permitiu à palavra escrita «ganhar materalidade» e chegar a toda a parte.
Vem isto a propósito daquilo de que hoje vos quero falar. Num tempo da comunicação em rede, cibernética e que se processa a uma velocidade estonteante, a palavra escrita, via e-mail ou sms, u.a., assume uma existência fugaz enquanto que a palavra dita, estando os interlocutores na presença um do outro, reganha uma importância há muito perdida.
Aquilo a que chamamos realidade virtual, e não nos esqueçamos que toda e qualquer realidade é uma «construção» verbal, torna-se efémera e aparente, porque assenta em situações e personagens também elas «construídas». E esta «construção» é infinitamente mais fácil porque criamos os nossos cenários e afivelamos a nossa persona face a um computador, enquanto que, na vida real, colocamos a máscara mas agora interagindo com os outros.
No mundo cibernético podemos ser tudo, podemos construir a personagem mais fantástica, mais sublime. Porém, quanto mais fantástica for esta nossa «construção», mais nos afastaremos de nós. E, qual Sísifo, quando nos julgamos quase no topo da pirâmide, uma mão poderosa e cruel sai-nos ao caminho e faz-nos deslizar até à base. Passados uns tempos e esquecida a frustração, este ciclo repete-se inexoravelmente porque a nossa memória é necessariamente curta.
Quando os dois mundos, real e virtual, se cruzam, a curiosidade inicial dá muitas vezes lugar à decepção. As «construções» que projectámos em palavras e/ ou que os outros «reconstruíram», a partir dessa nossa comunicação, não coincidem com o real e, não raramente, antagonizam-se.
É, por isso, que valorizo cada vez mais a comunicação olhos nos olhos, sem pontes, onde a tristeza é tristeza, uma lágrima, uma lágrima, a alegria, alegria, o sorriso é genuíno… Poderá não ser totalmente assim - há sempre bons «actores» - mas a presença física do outro acaba por ser inibidora e dificultar a tal«construção».
Voltando à citação com que iniciei esta croniqueta, as palavras latinas acabam por retomar a sua valência inicial antes desta ter sido completamente subvertida, e assim poderemos cada vez mais dizer Verba Volant,scritpa manent.
As malhas que o homem e a sua circunstância tecem...
JB, 18Junho,2007

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