Divagações / Digressions
Tudo indicava que ...

Tudo indicava que iria ser um jantar animado, num local com uma vista magnífica sobre o mar. Chegados ao restaurante, foram encaminhados para a mesa previamente reservada. O sítio era, de facto, soberbo, numa arriba, com o oceano em frente a perder de vista.
Ao chegar junto à mesa reparou numa corrente de ferro, enferrujada, perto de uma das cadeiras. A pouco e pouco, aquela presença insólita foi-lhe provocando, em crescendo, um grande desconforto.
Daí até fazer a conexão neurótica foi um ápice. Pensou estar em presença de uma metáfora da sua própria existência. Tinha tudo para se sentir feliz: marido atento e dedicado, filhos que a realizavam como mãe, dinheiro para usufruir das coisas boas da vida...
Mas a sensação de incómodo colava-se a ela como uma lapa. Aquele pedaço de ferro transmitia-lhe a impressão incontornável de habitar uma prisão dourada, encantadora, sim, mas também com o seu quê de aterrador. Era um cadilho que se interpunha entre ela e a possibilidade de sonhar, que a amarrava a uma rotina. Sentia-se refém de uma persona que tinha de carregar religiosamente para não desestabilizar o «seu» mundo perfeito. Porém, a disponibilidade para voar continuava lá, insidiosa… Alguma vez lograria ela, como Dédalo, libertar-se do seu labirinto e mergulhar no desconhecido?
De repente, uma voz despertou-a para a realidade. Mecanicamente estendeu a mão e recebeu a lista que o marido, solícito, lhe estendia.
JB, Julho de 2007

Reader Comments (1)
Ou seja, alguém tem tudo, menos aquilo que lhe vem de dentro, essa inquietação... Para mudar de vida, é preciso coragem, sobretudo para quem tem uma vida "perfeita".
Ah! Pois é...
CR