Divagações / Digressions
Divagando sobre a Galiza, mães, filhos e outras coisas assim ...

Estive no último fim-de-semana na Galiza, para participar num torneio de ténis, e aproveitei o ensejo para visitar lugares que apenas conhecia de nome. Saliento Vigo, Baiona e, inevitavelmente, Santiago de Compostela.
De Vigo ficou-me a impressão de uma cidade em franco crescimento, registando-se aqui e ali um certo caos urbanístico. A zona ribeirinha é muito bonita e gostei particularmente de espreitar a cidade, à noite, de norte para sul.
Baiona é uma zona turística, com um porto de abrigo e belas praias mas com um mar muito batido por estas alturas. A zona do castelo é lindíssima e conseguem divisar-se várias ilhas ao largo.
Santiago é um ponto de peregrinação de gentes vindas dos quatro cantos do mundo. Fiquei particularmente impressionado pelo casco antigo, em particular com a beleza monumental da praça da catedral e do emaranhado de ruelas labirínticas sempre a fervilhar de gente.
Os galegos são afáveis e hospitaleiros. A gastronomia é digna dos maiores encómios, em particular os pratos de peixe e marisco e um vinho que me caiu especialmente no goto (Albariño), mais frutado do que o nosso Alvarinho, um pouco mais ácido. Aliás estes dois néctares de Baco resultam numa bela metáfora, como se as características genéticas dos dois povos se tivessem transmitido aos vinhos. Quanto aos preços são razoáveis e o serviço bastante profissional.
Na viagem de regresso, percorri toda a orla marítima, acidentada, a exigir redobrada atenção na condução, mas toda ela magnífica e que recomendo vivamente. Em particular para os amantes da fotografia…
Ao fazer o balanço desta minha «expedição» por terras da Galiza não pude deixar de concluir que, apesar de fazerem parte integrante da Espanha, os galegos mantêm a sua identidade cultural e linguística. E como os pensamentos se encadeiam uns nos outros, lembrei-me de um célebre pintor português que, pouco tempo antes de morrer e quando estava a ser condecorado pelo Presidente da República de então, se saiu com uma tirada que gelou o ambiente. Dizia este beirão, para espanto do mais alto dignitário do país, que a nossa grande tragédia tinha sido o derrube da monarquia dos Filipes em 1640. Caso esse facto não tivesse ocorrido, a situação do nosso país seria agora muitíssimo melhor.
Quando uma testemunha deste episódio me contou o ocorrido lembro-me de ter sorrido. Olhando retrospectivamente para o passado, começo a admitir que o lamento não era assim tão disparatado como na altura me pareceu. Só que agora julgo importante introduzir-lhe uma pequena cambiante. Nós somos o que somos em resultado de um arrufo familiar entre mãe e filho. E já viram as repercussões que essa questão «doméstica» teve na vida de um povo? Se tal diferendo familiar não tivesse ocorrido, seríamos um só povo, tal é a similitude entre nós e os galegos.
Diz o povo e é bem certo, as dissenções entre pais e filhos nunca trazem nada de bom…
JB, 4/7/07

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