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Auto-retrato com o oceano em fundo

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Nasci
No Março frio e agreste
A meio caminho entre o rio e a serra
Com o oceano em fundo.
Cresci
Numa banca de mercado
Por entre pregões e cheiros
E adormeci
Sempre
Com os olhos cheios de mar.
Um dia parti.
Deambulei por aí
Conheci gentes várias,
Demandei terras distantes
E a mil ofícios me entreguei.
Fui excessivo
Obsessivo, até,
Numa ânsia de absoluto.
Umas vezes fui feliz
Outras…
Quebrei a cara contra o vento.
Olho para trás
Agora já no caminho de regresso.
Que lucrei com esta sede,
Esta vertigem de ir sempre mais além?
Muita inquietação
E uma mão cheia de tudo e coisa nenhuma.
Talvez tenha ficado a amizade
Que nos ampara
E também nos confronta
Brutal,
Se for preciso,
Com a nossa pequenez
E intolerância.
Amizade que não tem sexo,
Nem grau de parentesco,
Nem proximidade,
Nem idade.
Amizade
Entrega e dádiva
Avessa à compulsão da mentira
E à ilusão da simulação.
À medida que escrevo
Olho lá para poente
E, nostálgico do mar,
Mergulho nas profundezas de mim.
Diviso,
Sem surpresa,
Algo mais
Que me ficou
Deste meu deambular pelo mundo:
A forte convicção que pertenço aqui,
A meio caminho entre o rio e a serra,
Com o oceano em fundo.

JB, Ag2007

Posted on Sexta-feira, Agosto 17, 2007 at 02:10AM by Registered CommenterJosé Bóia] | Comments2 Comments

Reader Comments (2)

Ás vezes é necessário partir para longe para sentirmos verdadeiramente onde pertencemos.
Agosto 17, 2007 | Unregistered CommenterDu
O frio de Março gerou um amigo que nos dá calorosa solidariedade e fraterno abraço nas horas geladas da social hipocrisia.
Votos de ´continuação de boas férias e até breve.
Agosto 17, 2007 | Unregistered Commenterratinho da palmeiro

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