Divagações / Digressions
Terra quente

A tua tez morena,
Acorda,
Dentro de mim,
A nostalgia de um outro tempo…
Da terra quente,
Trigueira,
Abaixo do Equador,
Dos mercados de rua,
Dos pregões
Das peixeiras da Ilha,
Da papaia, manga e mamão,
Olá D. Conceição
Ainda se lembra de nós?
Da amena cavaqueira
À noitinha
Com a baía banhada pela lua
E o copo de uísque a inebriar-nos a alma.
Da fortaleza
Sobranceira,
A dominar a cidade,
Dos passeios ao fim da tarde
Das mulatas,
Lindas,
Do bambolear provocante.
Do ténis
Nos Coqueiros
Do sol sufocante…
Do Mussulo,
Das patuscadas
Das noitadas
Até o sol despontar
E dos amigos
Que por lá deixei.
Depois de te ter perguntado,
Se te podia fotografar
Vi espanto no teu olhar.
Poder-te-ia ter replicado
Que a tua tez morena,
Acorda,
Dentro de mim,
A nostalgia de um outro tempo.
Mas não.
Em vez de te dar
A verdadeira razão
Lancei-te um piropo qualquer.
Desculpa,
Foi sem intenção,
Não te quis importunar...
É que havia tanto para dizer,
Tanto para explicar!
JB, Ag2007
PS. Dedico a foto e texto a dois Amigos, à P. e ao GP.

Reader Comments (2)
Embondeiro
*****
Hoje sentei-me debaixo de ti
Embondeiro
E, ainda que por momentos,
Viajei no tempo do foi assim...
Das savanas extensas feitas de mim
Das queimadas redentoras sem fim
Das chuvas torrenciais do novo capim
Na terra dos cheiros a mandioca e açafrão
E de todas as metamorfoses de que foste guardião.
E senti, no rosto, o beijo de picante paladar
Daquela negra de fascinante olhar
Semi-deusa, semi-nua em corpo de enfeitiçar
Que dentro ti me mostrou um mundo de emoções
Ao som de um batuque que lá do longe
Nos ofertava os delírios de ancestrais iniciações
E nos oferecia lições de aprender a viver
Em tempos a que só o tempo sabia responder.
--
Hoje sentei-me debaixo de ti
Embondeiro
E, ainda que por momentos,
Fiquei imóvel, esmagado, chão terreno
A olhar-te como quem entende esse segredo
De seres tão grande e tão pequeno
E de me fazes sentir este imenso degredo
De só te poder viver nos sonhos de um aceno.
Mas, ainda assim, vivi, sonhei, abri asas e gritei.
E cavalguei no dorso das gazelas
Subi ao penhasco das águias, soltei-me, planei com elas
Bebi água com o leão, entre javalis e zebras
Descansei à sombra dum elefante, ouvi o choro das hienas
Fui mais alto que as girafas, fui animal de mil raças.
E entre bandos multicolores em acrobacias de perigo
Voei horizontes de azul rasgados a vermelho vivo
Para lá da tela do sol-pôr que me ofertavas
Enquanto, deleitado, debaixo de ti me abandonava
Ao sabor da brisa que canta o imenso hino
Que, de tão intenso, cabe numa simples semente de tamarindo.
--
Hoje sentei-me debaixo de ti
Embondeiro
E, ainda que por momentos,
Fui livre na criança que te aprendeu a pinceladas de negro
E se fez homem nos encantos da mulata em requebro
Em batucadas de feitiço vestidas de mil saris
E revestidas com cânforas de cheiro e óleos subtis
Emolduradas pelos olhares dos longínquos mandarins,
Que me fizeram crescer entre o carrinho de arame e lata
E a lângua de matope onde pescava cacanas cor de prata
No tempo em que as cobras eram simples animais
E me ofereciam de prazer todos os pecados originais
Herdados directamente da estirpe de Gungunhana
Imortalizados nos vermelhos fortes de Malangatana.
E eu sonhava com manchimbombos amarelos em ilusões abertas
Que rumassem a um futuro de saudáveis descobertas
Da harmonia dos cheiros de África e dos orientais incensos...
Mas que o homem, abruptamente, manchou de fatais contra-sensos.
--
Hoje sentei-me debaixo de ti...
Embondeiro
E, ainda que por momentos...
Revivi!
Depois..., parti.
*****
António San
11-04-05